Estava aquela chuva de verão cretina caindo sobre Santana, eu estava cansada, voltando do centro da cidade com minha mãe, e precisávamos tomar um ônibus no terminal Santana. A fila estava ENORME. Veio um homem pedir dinheiro para comer. Minha mãe não deu nada, assim como as outras pessoas da fila. O homem se sentou; sujo, cheirando mal.
Eu estava tão cansada, o calor, e tudo o mais, pedi pra ir sentar, e sentei em um banco ao lado do homem. Ele me disse que estava a duas semanas sem comer. Eu disse que não tinha nenhum dinheiro, apenas o dinheiro da passagem de ônibus, o que não deixava de ser verdade, mas dei metade da minha garrafa de Coca Cola pra ele. O homem agradeceu, e bebeu com tamanho gosto, de uma só vez, como se aquela Coca fosse a última e melhor coisa da face da Terra.
Ele dizia: ''Saí de casa. Estou longe de casa'' Então começou a cantarolar a música da Blitz ''Longe de casa, a mais de uma semana'' e eu o acompanhei em um verso. Disse que não estava longe de seu amor, mas que precisava comer. Pediu ajuda novamente, para outra pessoa da fila : ''Ei, você, eu estou com fome e preciso de sua ajuda''. No início a moça ignorou, mas depois disse ''Eu não tenho nada para você''
Perguntei seu nome. ''Meu nome é Oliver'' Dai então minha mãe reparou que ele estava falando comigo e me mandou voltar pra fila. Eu não tinha opção, e voltei. Dois minutos depois, Oliver estava do lado da minha mãe, e dizia: ''Só uma coisa minha senhora; eu faltei com o respeito? Faltei com a dignidade?''
Eu pensei 'Realmente. Ele não fez nada. O que ele podia fazer alí? Estava aguentando nãos o dia inteiro, debaixo de chuva, morrendo de fome e de sede, e quando alguém lhe sorri, lhe dá algo, ou simplismente pergunta seu nome, aconteçe algo assim. Tive que voltar' Minha mãe disse: ''se estamos te ignorando, fique na sua'' Intervi. ''Mãe, pare'' E Oliver continou '' Eu não faltei com o respeito nem com a dignidade. Eu me humilho todos os dias pra pedir um real pra poder comer'' E minha mãe rebatia ''Mas nós não temos. É só isso '' E ele não pode fazer nada, simplismente se virou e voltou para o banco, indignado. Me senti mal.
Achei injusto minha mãe ser tão rispida, apesar de não ter sido mal educada, ela nem sabia com quem estava falando. Ele não havia lhe feito nada. Ele apenas estava lá, pedindo dinheiro, e eu lhe dei minha Coca Cola, lhe perguntei o nome.
Acho que as pessoas deviam tentar entender melhor o ponto de vista das outras, tentar se colocar no lugar das outras. Não sei. Mas eu simplismente não aguentava mais ver as pessoas serem tão estúpidas apenas porque se julgam serem melhores por causa do poder aquisitivo. Ou porque estavam mais cheirosas, mais bem vestidas. Ou tinham o que comer.
Patético.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Tão Rápido
Mais uma. Sua foto ficou incrível ! ''ótimo!'' ela pensou. E se sentou ao lado do amigo. Guardou a máquina. E gritou; segurou em seu braço. Tudo tão rápido.
Em um segundo seu braço estava do outro lado, guiando-a. Seu rosto se movia sem controle, ela não enxergava mais.
Pensou, lentamente, que ia morrer.
Não sabia se desmaiara ou não, apenas se viu sendo carregada por alguns homens, e a voz de seu amigo, sem ve-lo.
Acordou novamente. Enfermeiros de PS se revezavam em colocar um tubo de ar em seu nariz, um de soro em sua veia, e enche-la de perguntas. ''Qual é o seu nome?''; ''Que remédios você toma?''
Ela não conseguia falar. Precisava chorar, as luzes irritavam seus olhos. Aquilo não podia ser real. PS. Convulsão. Alí as pessoas tentavam lhe explicar o que acontecera.
''Você teve uma crise na rua, em frente ao hospital, seu amigo pediu ajuda e te trouxemos pra cá. Agora está tudo bem, já ligamos pra sua mãe,e ela está a caminho''
Bruno!
''Bruno, onde está Bruno?'' A garota chorou até o amigo aparecer. Se sentia sozinha.
''Já liguei pra mãe, ela está vindo.''
Calma. Agradecimentos. Descrença. Conformação.
Toda a rotina de remédios e organização de pensamentos havia sido quebrada. Ela jamais iamginaria que sentiria aquilo de novo.
Mas agora ela sabia como agir e que fazer. Sabia que não estaria sozinha jamais.
Anjos são boas companhias.
Em um segundo seu braço estava do outro lado, guiando-a. Seu rosto se movia sem controle, ela não enxergava mais.
Pensou, lentamente, que ia morrer.
Não sabia se desmaiara ou não, apenas se viu sendo carregada por alguns homens, e a voz de seu amigo, sem ve-lo.
Acordou novamente. Enfermeiros de PS se revezavam em colocar um tubo de ar em seu nariz, um de soro em sua veia, e enche-la de perguntas. ''Qual é o seu nome?''; ''Que remédios você toma?''
Ela não conseguia falar. Precisava chorar, as luzes irritavam seus olhos. Aquilo não podia ser real. PS. Convulsão. Alí as pessoas tentavam lhe explicar o que acontecera.
''Você teve uma crise na rua, em frente ao hospital, seu amigo pediu ajuda e te trouxemos pra cá. Agora está tudo bem, já ligamos pra sua mãe,e ela está a caminho''
Bruno!
''Bruno, onde está Bruno?'' A garota chorou até o amigo aparecer. Se sentia sozinha.
''Já liguei pra mãe, ela está vindo.''
Calma. Agradecimentos. Descrença. Conformação.
Toda a rotina de remédios e organização de pensamentos havia sido quebrada. Ela jamais iamginaria que sentiria aquilo de novo.
Mas agora ela sabia como agir e que fazer. Sabia que não estaria sozinha jamais.
Anjos são boas companhias.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Depilação Cavadinha
"Tenta sim. Vai ficar lindo."
Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim.
Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria
pornô-ginecológica-estética.
- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- Vai depilar o quê?
- Virilha.
- Normal ou cavada?
Parei aí.
Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.
- Cavada mesmo.
- Amanhã, às... Deixa eu ver...13h?
- Ok. Marcado.
Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui.
Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de "Calígula" com "O Albergue". Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.
- Querida, pode deitar.
Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus, era "O Albergue" mesmo.
De repente, ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.
- Quer bem cavada?
....é... é, isso.
Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome
carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.
- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais
ainda.
- Ah, sim, claro.
Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).
- Pode abrir as pernas.
- Assim?
Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna
pra um lado.
- Arreganhada, né?
Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha Virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar.
Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas
minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural.
Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido
de respirar. Tinha medo de que doesse mais.
- Tudo ótimo. E você?
Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha". Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes.
O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope.
Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas.
- Quer que tire dos lábios?
- Não, eu quero só virilha, bigode não.
- Não, querida, os lábios dela aqui ó.
Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.
- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.
Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope
e dá uma conferida na Abigail.
- Olha, tá ficando linda essa depilação.
- Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.
Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das
duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. "Me leva daqui, Deus, me teletransporta" . Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.
- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?
- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada.
Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos
resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.
- Vamos ficar de lado agora?
- Hein?
- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.
Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.
- Segura sua bunda aqui?
- Hein?
- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.
Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:
- Tudo bem, Pê?
- Sim... sonhei de novo com o cu de uma cliente.
Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu Twin Peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação.
Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá?
Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse
ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.
- Vira agora do outro lado.
Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha.
E então, piora. A broaca da salinha do lado novamente abre a cortina.
- Penélope, empresta um chumaço de algodão?
Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.
- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.
- Máquina de quê?!
- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.
- Dói?
- Dói nada.
- Tá, passa essa merda...
- Baixa a calcinha, por favor.
Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha! Como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção.
Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.
- Prontinha. Posso passar um talco?
- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.
- Tá linda! Pode namorar muito agora.
Namorar...namorar. .. eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais.
Queria matar minhas amigas.
Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso.
Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada.
Queria comprar o domínio www.preserveasvaginaspeludas.com.br
Filha da puta foi a mulher que inventou a "cavadinha".
Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim.
Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria
pornô-ginecológica-estética.
- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- Vai depilar o quê?
- Virilha.
- Normal ou cavada?
Parei aí.
Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.
- Cavada mesmo.
- Amanhã, às... Deixa eu ver...13h?
- Ok. Marcado.
Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui.
Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de "Calígula" com "O Albergue". Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.
- Querida, pode deitar.
Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus, era "O Albergue" mesmo.
De repente, ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.
- Quer bem cavada?
....é... é, isso.
Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome
carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.
- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais
ainda.
- Ah, sim, claro.
Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).
- Pode abrir as pernas.
- Assim?
Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna
pra um lado.
- Arreganhada, né?
Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha Virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar.
Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas
minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural.
Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido
de respirar. Tinha medo de que doesse mais.
- Tudo ótimo. E você?
Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha". Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes.
O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope.
Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas.
- Quer que tire dos lábios?
- Não, eu quero só virilha, bigode não.
- Não, querida, os lábios dela aqui ó.
Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.
- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.
Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope
e dá uma conferida na Abigail.
- Olha, tá ficando linda essa depilação.
- Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.
Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das
duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. "Me leva daqui, Deus, me teletransporta" . Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.
- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?
- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada.
Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos
resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.
- Vamos ficar de lado agora?
- Hein?
- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.
Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.
- Segura sua bunda aqui?
- Hein?
- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.
Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:
- Tudo bem, Pê?
- Sim... sonhei de novo com o cu de uma cliente.
Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu Twin Peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação.
Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá?
Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse
ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.
- Vira agora do outro lado.
Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha.
E então, piora. A broaca da salinha do lado novamente abre a cortina.
- Penélope, empresta um chumaço de algodão?
Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.
- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.
- Máquina de quê?!
- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.
- Dói?
- Dói nada.
- Tá, passa essa merda...
- Baixa a calcinha, por favor.
Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha! Como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção.
Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.
- Prontinha. Posso passar um talco?
- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.
- Tá linda! Pode namorar muito agora.
Namorar...namorar. .. eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais.
Queria matar minhas amigas.
Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso.
Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada.
Queria comprar o domínio www.preserveasvaginaspeludas.com.br
Filha da puta foi a mulher que inventou a "cavadinha".
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Edson Néris é cada um de nós

Por Márcio Retamero* 11/2/2010 - 19:12
No dia 06 de fevereiro de 2000, há dez anos, um homossexual chamado Edson Néris da Silva foi brutalmente assassinado por uma gangue de skinheads na Praça da República, centro de São Paulo. O motivo? Passava pela praça de mãos dadas com seu namorado Dario Pereira Netto. Bastou isso, para um bando de mais de trinta "carecas" voassem em cima dos dois munidos de correntes, soco inglês, chutes e pontapés. Dario conseguiu fugir, mas Edson foi espancado até a morte.
Um vendedor ambulante que estava no local e presenciou tudo, foi o ser humano que agiu como o "bom samaritano" da parábola dos evangelhos. Seguiu o grupo até um bar no bairro do Bexiga, onde tranquilamente tomariam cervejas, provavelmente comemorando o ato. Ele telefonou para a polícia, que cercou o bar, prendendo cerca de vinte dos integrantes do grupo "Carecas do ABC". Desses vinte, apenas três foram condenados, dois deles a vinte e um anos de prisão; dez anos depois todos estão soltos.
O promotor Dr. Marcelo Milani que ofereceu denúncia contra os três réus foi considerado, por muitos, um herói na época. Durante todo o processo ele conduziu o crime praticado pelos carecas como um crime de ódio, tipologia criminal inexistente no Brasil. É dele a frase que ficou famosa: "Se os carecas podem andar pelas ruas com suas camisetas, botas, anéis que os identificam como neonazistas, os homossexuais também podem andar de mãos dadas". Não tenho dúvidas: não fosse a linha de acusação que o Dr. Milani tomou, este caso seria mais um impune no nosso país.
O crime correu nas manchetes de jornal, revistas (a revista Época ganhou um prêmio de uma importante ONG LGBT pela cobertura do caso) e órgãos internacionais de Direitos Humanos acompanharam de perto e com atenção o caso, tudo isso devido ao intenso trabalho da militância do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB). De Norte a Sul do Brasil, discutia-se questões como orientação sexual, direito das minorias e a palavra homofobia entrou para o dia-a-dia dos meios de comunicação e no linguajar político da militância.
Dias após o crime, um grupo de quinhentas pessoas se reuniu na Praça da República para uma vigília em memória de Edson Néris; contudo, um grupo bem maior de homossexuais a poucos metros dali, na Av. Vieira de Carvalho, levava a vida como se nada tivesse acontecido, curtiam a noite com gargalhadas e cervejas e se recusaram a participarem do ato, segundo denúncia do nosso premiado escritor João Silvério Trevisan em artigo escrito naquele contexto. Neste artigo contundente em que denunciava também o oportunismo e as divisões dos grupos da militância LGBT numa disputa que Trevisan chamou de "inflação fálica", o autor afirmava: "Edson Néris é cada um de nós".
Dois anos antes do assassinato brutal do nosso adestrador de cães (essa era a profissão do Edson), no dia 12 de outubro de 1998, falecia no Hospital Proude Valley, no estado do Wyoming, EUA, o estudante universitário Matthew Shepard (foto). Matthew foi torturado e espancado por dois jovens. Motivo? Era gay tal como o nosso Edson Néris.
Poucas são as diferenças entre Shepard e Néris: econômica, social, geográfica. Muitas as semelhanças: ambos eram cristãos; o americano era evangélico e Néris era mórmom; ambos gays e ambos foram assassinados por serem homossexuais. As consequências da morte traumática de ambos abrem um imenso abismo entre os dois: o americano, além de milhares de sites em sua memória, fundações em defesa dos direitos humanos LGBT, memoriais erguidos que recordam à sociedade o que aconteceu para que não se repita o mesmo ato hediondo, três filmes e uma lei com seu nome, o "Matthew Shepard's Act", assinada em outubro de 2009 pelo presidente Barack Obama. A lei, inédita nos EUA, criminaliza a homofobia.
Do lado debaixo do Globo, Edson Néris não ganhou nenhum site em sua homenagem (busquei sem sucesso no Google); nenhum memorial, por mais que Ricardo Aguieiras tente até hoje, foi erguido; nenhum filme, nem sequer um documentário... Sim, existe o Instituto Edson Néris, mas você que é LGBT e que não faz parte da militância sabia dessa informação ou sabe quais são as atividades do IEN? Por que ainda não temos um memorial ao Edson conforme noticiado aos quatro ventos na primeira Conferência Nacional LGBT? O mármore rosa já foi garantido pelo Grupo Gay da Bahia, estado de origem da família do Edson. Por que ainda não foi construído? Por que nenhum cineasta se interessou pelo caso para fazer pelo menos um documentário? Por que a Câmara de Vereadores de SP ou a Prefeitura de SP ou o Governo do Estado de SP nada fizeram até hoje em homenagem ao Edson? Nem mesmo a Lei 10.948/01, que trata da penalização por atos homofóbicos no estado de SP, leva o nome da vítima assassinada no mais emblemático caso de crime de ódio praticado neste estado!
Nos EUA, onze anos depois do assassinato de Matthew Shepard, o presidente Barack Obama assinou a lei que criminaliza a homofobia. No Brasil, dez anos depois do assassinato de Edson Néris, a PLC 122/06 continua parada no Senado pelo vergonhoso trabalho dos senadores evangélicos. Magno Malta mais uma vez conseguiu adiar a votação do PLC 122/06 na Comissão, convocando audiência pública para "debater" o tema da matéria, convidando para isso, um dos maiores inimigos da comunidade LGBT brasileira, o Pastor Silas Malafaia! Isso é um deboche! Um absurdo!
Parte da militância LGBT diz que jamais vivemos um período político como o atual. O Governo Federal, dizem alguns, é o governo mais pró-LGBT que já tivemos em nossa História - e isso não é de todo uma inverdade - mas eu pergunto: este governo que já conseguiu tantas vitórias no Legislativo em suas matérias de interesse; este governo que já foi acusado de passar como um "rolo compressor" na oposição no Congresso Nacional; este governo que elaborou o Programa Brasil sem Homofobia; por que ainda não conseguiu, com seus aliados, passar o PLC 122? Sim, porque eu só vejo e ouço os senadores Magno Malta e Marcelo Crivella trabalharem contra e conseguindo parar as votações! Somente os dois têm tanto poder assim? Detalhe: Crivella é o candidato do Lula ao Senado no Rio de Janeiro! Pode isso no governo mais pró-LGBT que o Brasil já conheceu?!
Na real, falta é interesse e trabalho com afinco! Faço minhas as palavras de João Silvério Trevisan e pergunto: "Quantos 'Edsons' ainda terão que morrer até tomarmos consciência de quem somos e lutarmos por nosso amor?"
* Márcio Retamero, 35 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói, RJ. É pastor da Comunidade Betel do Rio de Janeiro - uma Igreja Protestante Reformada e Inclusiva -, desde o ano de 2006. É, também, militante pela inclusão LGBT na Igreja Cristã e pelos Direitos Humanos. Conferencista sobre Teologia, Reforma Protestante, Inquisição, Igreja Inclusiva e Homofobia Cristã. Seu e-mail é: revretamero@betelrj.com.
Texto publicado no site http://acapa.virgula.uol.com.br/site/
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Araras;
Sabe. Lá eu não me sinto uma visita. Eu me sinto parte da família. Eu não me sinto como se tivesse que fazer as coisas por obrigação, faço porque eu quero. Dá vontade de fazer. O clima é tão agradável, não tem brigas, as pessoas todas me tratam tão bem :)
Mesmo sendo outro clima, outra energia, é muito bom. Por aqui, é briga. É um clima pesado na maioria das vezes e me incomoda. É ficar no PC o dia inteiro. É não ter nada pra fazer. Não ter pessoas pra conversar. Não tem algo que me deixe com vontade de esperar o tempo passar, de reunir todo mundo junto. Lá todos se reúnem. Nem que seja pra contar os casos, pra comer, pra desabafar. Tem união. Eu sinto falta de algumas coisas que muitas vezes...eu só consigo ter lá.
E isso é ruim. Queria a união, outra coisa pra fazer sem ser ficar sentada na frente do PC, e não precisar gastar mais de 10 reais pra sair de casa.
Eu sou muito feliz lá. Aqui também. Sou realmente muito feliz. E ter que esperar muitas vezes mais de um mês pra poder ir pra lá. Gastar uma grana que nunca saberemos se vem. Ficar os momentos poucos e necessários pra eu ter os melhores sorrisos, fotos, lembranças, tudo. E voltar pra cá. Diferente melhor, querendo fazer daqui sempre um ambiente melhor.
Mas a distância muitas vezes é tão ruim. Não gosto de ter que esperar, de ter que lembrar que ainda falta tanto. Mas quando chega perto a ansiedade é tão gostosa. Esquisito tudo isso eu acho.
E nesse meio tempo o humor fica numa montanha russa, de felicidade e tristeza, de não saber o que fazer, e olhar para fotos, e ter a certeza, que eu posso esperar o tempo que for, porque eu sou muito, muito feliz de ter vocês, todos, vocês !
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
sobre ele;
1993. Era uma vez uma menina. Amanda Brusi. 2005. Era uma vez a menina. Amanda Brusi Pino. Em algumas horas, assinando alguns documentos, eu tinha o sobrenome de meu pai, 12 anos depoies de ser registrada. Um sobrenome que eu não gostava, não via sentido, o conhecia apenas por uma foto ! Lembro-me talvez dele ter me levado ao cinema uma vez, aos 6 anos. nunca mais o ví. os dias seguintes ele veio me ver umas duas vezes, conversar sobre burocracia com minha mãe. Me deu um livro de fotografia. Falou sobre meus avós e meu tio que mora no Chile. Deixou um cheque. Entendi então que aquele nome era algo imposto para poder receber dinheiro dele todo mês. Acho que não deu certo. COntribuiu um mês e depois alegou na justiça estar desempregado. Raiva. Ódio. Queria deixar de ser filha dele, riscar aquele nome de todos os meus documentos. Era horrível. Amanda Pino. NÃO! Sou Amanda Brusi. Mas passou. Três anos se passaram e não nos falamos mais. Em 2009 ele apareceu, fmos nos encontrar, me deu dinheiro. Mas não sentia mais raiva, foi um dia agradável, lembro até hoje. Como dois velhos amigos tentando retomar o tempo perdido. E agora já faz um ano que não nos falamos. Els foi para o Chile cuidar de minha vó que está muito doente. E eu sinto algo muito esquisito; sinto vontade de ve-lo, saudades. SInto vontade de conhecer meus avós e minhas irmãs.Sei que tenho 3: Daniela, Aura e Ana Lucia. Será que sabem de mim? Será que vão gostar de me conhecer? Eu não sei se devo sentir isso, me importar com quem nunca se importou. Mas é família. Eu não sei abandonar.
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